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Archive for the ‘Literatura Brasileira’ Category

Geraldo Viramundo, nascido Geraldo Boaventura, perambulou, peregrinou e viveu – como nos adianta o subtítulo do livro – aventuras e desventuras, sempre ao sabor de sua ingenuidade e inata bondade, além da notória e igualmente já antecipada alienação – que, inclusive, rende os momentos mais engraçados de suas andanças por uma ‘Minas Gerais’ bastante peculiar.

A racionalidade e a loucura se assentam e se misturam, os relatos sobre a vida do grande mentecapto passeiam entre devaneios, jocosidades e tragédias. Viramundo é, sem dúvidas, o mais quixotesco dos ilustres personagens da literatura brasileira.

O mineiro Fernando Sabino começou a escrever “O grande mentecapto” em 1946, que apenas seria finalizado 33 anos depois, em um impulso criativo que o levou a trabalhar incessantemente até por fim à saga de Viramundo, durante 18 dias ininterruptos.

A obra constitui-se em uma bela e descarada homenagem ao povo brasileiro, em sua maioria, tão sofrido e injustiçado; ingênuo, bem intencionado, ignorante e abandonado, assim como Geraldo Viramundo, em suas inenarráveis peregrinações e aventuras e desventuras.

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Polêmico. Com este único termo podem ser resumidas muitas das opiniões sobre o livro do advogado Saulo Ramos, muito debatido nos colóquios dos estudantes e profissionais do meio jurídico. A obra apresenta uma aura de autobiografia, sempre arraigada em interessantes e relevantes fatos da recente história política do Brasil, além de divagações variadas sobre temas internacionais e algumas abstrações.

O segredo de Saulo para cativar o leitor é narrar, paralelamente à sua própria história e suas ponderações, as dificuldades e deslindes de um misterioso e complexo caso, no qual atuou como advogado de um perturbado pai, acusado de ter praticado atos imorais contra seus filhos, e que ameaçara, de início, se matar caso o ilustre causídico não aceitasse o patrocínio de sua defesa – jurando de antemão ser absolutamente inocente e injustamente perseguido por sua ex-mulher. A este fio condutor o autor retorna constantemente após divagar despreocupadamente em outros domínios.

Nos comentários políticos e jurídicos o livro é bastante ácido e impiedoso com certas figuras de nossa história, principalmente com alguns indivíduos que integram e integraram diversas posições no Poder Judiciário brasileiro. E é óbvio que essas passagens que abusam das críticas são as mais divertidas do livro, além de serem igualmente deleitosas as reflexões de Saulo Ramos sobre as enraizadas mazelas causadas pela corrupção em nosso país, que apenas se repetem em novos episódios com o passar dos anos – como somos forçados a concluir com a exposição constante no “Código da Vida”.

Entretanto, muitos críticos sustentam que o autor peca ao ser parcial e não criticar seus amigos, como os da família Sarney, para citá-los a exemplo. Ora, seria ilógico esperar uma postura diferente de alguém que, no decorrer de seus relatos, lida com amigos de longas datas. Caso alguém queira fazer “justiça” e complementar os relatos de Saulo Ramos devia sentir-se livre no uso e gozo de sua liberdade de expressão e escrever suas próprias impressões. Outros se preocupam em apontar com ardor certas incoerências históricas ou cronológicas. Sem embargo da procedência de algumas dessas falhas ou até mesmo das recriminações, creio que a afixação exagerada a tais detalhes acaba por sugar o prazer da leitura. Apontar é uma coisa; desmerecer a obra por alguns destes pontos – como vi em algumas resenhas – é algo demasiado intolerante e não muito saudável.

Em minha singela opinião, acho que muitos se preocuparam com o miolo do livro e não se lembraram de ler ou reler uma citação de Rivarol, feita na contracapa em uma afável saudação de Jô Soares, ao autor e amigo, Saulo Ramos:

“O gênio e o talento: o historiador e o romancista fazem entre eles uma troca de verdades, de ficções e de cores para dar vida ao que não é mais.”

Eis o mote que melhor conduzirá a leitura deste livro. Leiam e tirem suas próprias, justas e fundamentadas conclusões.

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Dante Delmanto é um ícone da advocacia criminal brasileira, tendo como filho o também ilustre e saudoso jurista Celso Delmanto. Dizer mais é dispensável. E é exatamente pela notoriedade do sobrenome de Dante que seu livro “Defesas que fiz no júri” foi uma bela surpresa, perdida em meio a muitos livros mais técnicos e volumosos, em uma estante de “Direito Penal”. Obra de leitura leve e límpida, ela acaba sendo deveras acessível, principalmente aos que não são íntimos ao mundo do Direito.

A satisfatória experiência de longos anos de Delmanto é a matéria prima deste surpreendente livro. Como é dito na própria apresentação, escrita a 22 mãos amigas do querido mestre, meio século de apaixonada atuação no júri é privilégio de poucos.

Como o próprio nome da obra já antecipa, são trazidos vários casos, cada um apresentado preliminarmente ao leitor, inclusive com menções de notícias e destaques jornalísticos, para, somente depois, mergulhar-se nas veredas do direito, sendo ainda, por vezes, necessário valer-se da alusão aos inafastáveis conhecimentos científicos da perícia e da psicologia. É interessante saborear os deslindes e a solução de todos os casos, sendo praticamente impossível não curvar-se diante da sagacidade de Dante Delmanto em muitos dos episódios.

Até mesmo os menos inclinados às seduções do Direito Penal não conseguem resistir à beleza deste livro, que é uma prova de essencialidade da realização de justiça nesta espinhosa área da ciência jurídica. Mesmo diante da extrema crueldade de alguns casos, somos obrigados a compreender a necessidade do exercício do direito de defesa e a concretização dos ideais de justeza.

A sétima edição de “Defesas que fiz no júri”, que aproveita o ensejo e celebra o Centenário de nascimento do autor, sucede seis edições esgotadas e que atestam a excelência da obra.

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Dimitri Borja Korosec, nascido na Bósnia em 1897, é filho de um anarquista sérvio e uma contorcionista brasileira que fugiu de sua pátria para acompanhar uma trupe circense. A mãe de Dimitri guarda uma peculiaridade em suas espúrias origens, uma vez que é filha de uma escrava com o coronel Manoel Vargas, pai de Getúlio Vargas.

Por influência de seu pai, o jovem Dimitri ingressa na Skola Atentatora, uma instituição que forma assassinos profissionais, especializados em atentar contra ditadores e políticos “opressores”. Todavia, o já obstinado rapaz, além de uma anomalia que o faz ter um dedo indicador a mais em cada mão, é caracterizado por ser explícita e exageradamente desastrado.

Após concluir seus “estudos” na delicada arte de matar, o jovem anarquista parte em uma inflexível cruzada tendente a exterminar todos os ditares e opressores do mundo. Em sua insólita jornada, Dimitri presencia o estopim da Primeira Grande Guerra, participa diretamente deste conflito, conhece Marie Curie e Mata Hari, sendo que esta última no Orient Express, passa pelo fantástico mundo Hollywoodiano, conhece Al Capone e a nata da máfia de Chicago e, dentre inúmeros outros destinos, passa pelo Brasil, tão mencionado por sua mãe e que lhe inspira várias curiosidades. As destinações e personalidades mencionadas acima são apenas exemplos de um enredo feito no melhor estilo “Forrest Gump” (1985), um livro de Winston Groom que baseou o filme de Robert Zemeckis.

E são nestas curiosas bases que Jô Soares estrutura – com maestria – “O homem que matou Getúlio Vargas”, uma simples, acessível e deliciosa obra que mistura inteligentemente História e ficção, absurdo e realidade. E essa combinação é feita com tanta perícia (e, principalmente, tanto cinismo) que o leitor não interrompe a leitura para se questionar acerca da veracidade ou coerência dos fatos, limitand0-se a devorar as páginas, aceitando como a mais pura verdade todas as passagens e acontecimentos da vida de Dimitri Borja Korosec.

Muitos resistem à leitura das obras de Jô Soares, por vezes fundamentando sua resistência na presumida personalidade egocêntrica do autor. Todavia, convém ressaltar que, mesmo que tais oposições possam ser pertinentes, elas não significam de modo algum uma suposta diminuição de qualidade dos escritos. Vale a pena ler esta preciosa obra, que quando é terminada deixa uma suave sensação de “querer mais”.

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“Ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles quase nove meses perdi parte de minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve.”

O ano era 1944. Na assolada Europa a Segunda Guerra Mundial já se encontrava nos princípios de um agonizante fim. No Brasil, o presidente dos “Diários Associados” (um enorme conglomerado empresarial da imprensa à época), Assis Chateaubriand, convocou o jornalista Joel Silveira para a cobertura das incursões da Força Expedicionária Brasileira na Itália fascista do tresloucado Mussolini; e o fez com as seguintes palavras, diante do já fardado jornalista de 26 anos: “Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra mas não morra. Repórter não é para morrer, é para mandar notícias.”

E com esta ordem seguiu para a Itália o jovem e competente correspondente de guerra, que lá se juntou a Rubem Braga (Diário Carioca), Egydio Squeff (O Globo) e Thassilo Mitke (da Agência Nacional), além de ter convivido com muitos outros repórteres compatriotas e de outros países.

Escritos em forma de diário, alguns dos melhores textos de Joel são trazidos neste intenso e singular livro, onde nos são mostrados, com simplicidade e um certo lirismo, a rotina no front e o deslinde dos avanços da FEB. Tais relatos foram originalmente publicados no mesmo ano em que a Segunda Grande Guerra havia terminado – 1945 – no livro “Histórias de Pracinhas”. A atual edição, trazida pela Objetiva (vide foto acima), conta com um maravilhoso e inédito texto autor, que apresenta – com muita sensibilidade – a obra ao leitor, servindo também como um singelo desabafo aos anos e anos de comentários insensíveis e impensados, que insinuavam ter sido um mero “passeio” a participação do Brasil na guerra, bem como classificando como “fácil” o trabalho dos correspondentes na Itália.

“O inverno da guerra” pertence a uma primorosa coleção chamada “Jornalismo de Guerra”, da editora Objetiva, inaugurada com “A Queda de Bagdá”, de Jon Lee Anderson e que também conta com o excelente “O Gosto da Guerra”, de José Hamilton Ribeiro, repórter brasileiro que cobriu a guerra do Vietnã. Vale a pena dar uma olhada nesta arrebatadora coleção, que promete lançar os mais fortes e célebres relatos dos maiores conflitos bélicos dos séculos XX e XXI.

Enfim, este relato de Joel Silveira é indubitavelmente uma ótima oportunidade para conhecer, mesmo que superficialmente, alguns aspectos de um dos mais importantes episódios da história do Brasil, às vezes tão injustamente esquecido ou menoscabado.

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Vinicius de Moraes nasceu Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes. Posteriormente, ainda aos nove anos, dirigiu-se ao cartório e suprimiu o nome na forma latina, oriundo exclusivamente da paixão de seu pai pelo idioma de Cícero. Apesar de ter sido também diplomata e jornalista, Vinicius consagrou-se como poeta e compositor.

Os sonetos, em sua singeleza, quase sempre serviam para que Vinicius encontrasse beleza na simplicidade, desvendando a ternura e os sentimentos mais profundamente enterrados nas supostas banalidades da vida. Através de seus sonetos Vinicius conseguia facilmente aprofundar-se em temas complexos e significativos, como a morte e, principalmente, paixão e amor.

O “poetinha”, como foi carinhosamente alcunhado, destaca-se ao falar de amor, despejando torrentes de pura sinceridade e explicitude ao versar sobre o mais altivo dos sentimentos. Drummond, que nunca escondeu sua enorme admiração, chegou a afirmar ser Vinicius “o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural“.

Livro de Sonetos” foi primeiramente publicado em 1957, através da edição de Livros de Portugal. Em 1967 publicou-se a segunda e mais substanciosa edição do livro, devidamente aumentada. A coletânea trazida através da editora Companhia das Letras (1991), por sua vez, é riquíssima (vide imagem acima), trazendo inclusive sonetos inéditos. Enfim, a obra é uma oportunidade imperdível para ir-se bem além dos muitíssimos conhecidos Soneto de Fidelidade (“de tudo, ao meu amor serei atento”) e Soneto de Separação (“de repente do riso fez-se o pranto”), ou outros tão conhecidos.

Esta leitura lembra que nunca deve ser olvidado o mundo das poesias, pois não só de prosas vivem as pessoas. A poesia é alimento fundamental a todos os seres humanos, pois, como tais, todos amam, sentem, sofrem e aprendem.

“Livro de Sonetos” é uma obra belíssima e, acima de tudo, indispensável; nunca devendo ser “esquecida” em estantes, permanecendo, ao contrário, sempre que possível ao lado do leito, pois melhor lugar para este livro não há.

Soneto a quatro mãos

(com Paulo Mendes Campos)

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

Fonte e informações adicionais: http://www.viniciusdemoraes.com.br/

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Joaquim Soares da Cunha, oriundo de boa família, muito estimado pelos vizinhos, respeitável e “exemplar funcionário público da Mesa de Rendas Estadual”, sempre impecavelmente bem vestido e com a pasta debaixo do braço. Quincas Berro Dágua, jogador, debochado, freqüentador de botequins baratos, sem lar, sujo, barbado, “rei da gafieira”, “o cachaceiro-mor de Salvador”, “o rei dos vagabundos da Bahia”, o “patriarca da zona do baixo meretrício”.

Como aquele senhor outrora respeitável se tornou o famigerado Quincas Berro Dágua, Berrito para os mais íntimos?

É esta fantástica transmutação que nos revela Jorge Amado em uma de suas obras mais saborosas, que amalgama loucura e realidade, sonhos e fatos.

Leitura agradabilíssima, apesar de curta, e que, exatamente por isso, nos deixa com vontade de muito mais.

Na falta de mais palavras adequadas sobre esta obra, bem como na imperícia em usá-las, valho-me das poderosas considerações de Vinícius de Moraes, como bem consta na contracapa da edição da Record de “A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua” (foto acima):

“Saí da leitura dessa extraordinária novela, eu que andava no maior fastio de literatura, com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século 19, Pushkin, Dostoievski, Tolstoi, Gogol especialmente. Uma sensação de bem-estar físico e espiritual como só os prazeres do copo e da mesa, quando se está com sede ou fome, e os da cama, quando se ama. Ela representa dentro da novelística brasileira, onde há cimos consideráveis, um cume máximo. Um cume que todos os escritores jovens devem ter em mira, numa sadia inveja e num saudável desejo de ultrapassá-lo. E tanto pior se não o fizerem.”
(Vinícius de Moraes, em “Última Hora”, Rio, 1959)

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