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Archive for the ‘Ficção’ Category

Geraldo Viramundo, nascido Geraldo Boaventura, perambulou, peregrinou e viveu – como nos adianta o subtítulo do livro – aventuras e desventuras, sempre ao sabor de sua ingenuidade e inata bondade, além da notória e igualmente já antecipada alienação – que, inclusive, rende os momentos mais engraçados de suas andanças por uma ‘Minas Gerais’ bastante peculiar.

A racionalidade e a loucura se assentam e se misturam, os relatos sobre a vida do grande mentecapto passeiam entre devaneios, jocosidades e tragédias. Viramundo é, sem dúvidas, o mais quixotesco dos ilustres personagens da literatura brasileira.

O mineiro Fernando Sabino começou a escrever “O grande mentecapto” em 1946, que apenas seria finalizado 33 anos depois, em um impulso criativo que o levou a trabalhar incessantemente até por fim à saga de Viramundo, durante 18 dias ininterruptos.

A obra constitui-se em uma bela e descarada homenagem ao povo brasileiro, em sua maioria, tão sofrido e injustiçado; ingênuo, bem intencionado, ignorante e abandonado, assim como Geraldo Viramundo, em suas inenarráveis peregrinações e aventuras e desventuras.

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Depois de ler “Eu sou a lenda” (I am legend – 1954), de Richard Matheson, fica fácil entender porque a sua fiel legião de fãs é tão descontente com as adaptações cinematográficas desta obra já feitas até o presente.

A versão homônima, de 2007, dirigida por Francis Lawrence e estrelada por Will Smith, foi precedida por “The Last Man on Earth” de 1964 (com Vincent Price e com o título em português de “Mortos que matam”) e “The Omega Man” de 1971 (com a atuação do inigualável Charlton Heston, cujo título em português é “A última esperança da Terra”).

As duas películas mais recentes pecam ao colocarem de lado, quase integralmente, o enredo e os fatos mais relevantes do livro, o que acaba retirando um considerável potencial que os mesmos poderiam atingir caso atentassem à fidelidade. Já o mais antigo dos três, mesmo sendo o mais fiel à obra de Matheson, é uma produção limitada e pouco divertida, mesmo considerados os padrões da época.

No livro somos apresentados a Robert Neville, um homem que transformou sua casa em uma “fortaleza”, onde ele passa suas insólitas noites isolado, perambulando durante o dia e tentando sobreviver em um mundo onde ele parece ser o último de sua raça, cercado por criaturas que foram afetadas por uma misteriosa doença, que transformou todos, mortos ou vivos, em uma espécie de vampiros. A narrativa é brilhantemente estruturada em doses, mantidas em um ritmo soturno de intenso suspense até a última página.

O escritor e roteirista americano é considerado fonte de inspiração máxima por inúmeros escritores e entusiastas do gênero “horror fiction”, inclusive pelo mestre Stephen King, que chegou a dizer: “without Richard Matheson I wouldn’t be around.“.

O fato é que “Eu sou a lenda” redefiniu e popularizou um gênero que ficaria famoso nos anos seguintes com livros, filmes, histórias em quadrinhos e toda uma “cultura” sobre zumbis e uma espécie de novo-vampirismo, ligado à idéia de um apocalipse oriundo de causas biológicas.

Leitura bastante gratificante, ainda mais diante do meu inesgotável prazer em corroborar o que eu já sei – que o livro sempre é melhor que o filme.

O próximo na minha lista, neste quesito, é o livro “A guerra dos mundos”, de H. G. Wells.

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À primeira vista, mesmo para os olhares nada preconceituosos, podem parecer unicamente destinadas ao público infantil as aventuras de um jovem garoto que se descobre bruxo e passa a estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Porém, é seguro dizer que os livros da série Harry Potter estão muito além de um rótulo tão limitador e simplista. O dom da britânica Joanne Kathleen Rowling para contar histórias – de um modo prazeroso e envolvente – é tão brilhante quanto raro, ainda mais nestes tempos onde a mesmice parece ganhar cada vez mais terreno em vários campos das diversas artes.

O mundo de fantasias criado por esta talentosa escritora nos cativa de um modo viral logo nas primeiras páginas de “Harry Potter e a pedra filosofal”, sendo muito difícil não querer ter logo em mãos todos os próximos volumes.

Pode parecer um atraso falar deste livro após tanto tempo desde seu lançamento, mas é preciso compreender que muitos não gostam de ler grandes sucessos literários quando dos seus lançamentos, preferindo analisá-los longe do fervor das emoções que envolvem as discussões referentes a best-sellers.

Esta resenha não pode, nem poderia pretender ser, uma análise de toda a saga do jovem Potter, até mesmo porque o autor deste blog ainda não transpôs as barreiras do quarto volume da obra, de modo que a presente resenha é simbólica e provisória diante de todos os livros da série, apesar de apenas destacar o títutlo de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Entretanto, é possível falar um pouco sobre a criadora de todos estes relatos fantásticos.

Expulsa de casa pelo marido após uma briga, Rowling teve que cuidar de sua primeira filha enquanto tentava reconstruir sua vida e enquanto vivia contando apenas com o seguro-desemprego. A feroz força de vontade da autora encontrou o precioso dom de contadora de histórias, fazendo nascer, na mesa de locais como coffee shops, em Edimburgo, “Harry Potter e a pedra filosofal“, o primeiro da série e, logo de cara, um sucesso mundial. Todavia, os rudimentos e principais personagens do seu primeiro livro já estavam sendo criados há alguns anos.

Longe de ser, como já se disse, uma leitura aprazível apenas ao público infanto-juvenil, os livros de Rowling sabem como apaixonar todos aqueles que admiram uma história muito bem contada.

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“(…) Mas também queria pedir uma coisa, Mario, que só você pode cumprir. Todos os meus amigos ou não saberiam o que fazer ou pensariam que sou um velho caduco e ridículo. Quero que você vá com este gravador passeando pela Ilha Negra e grave todos os sons e ruídos que vá encontrando. Preciso desesperadamente de algo, nem que seja o fantasma da minha casa. A minha saúde não anda nada bem. Sinto falta do mar. Sinto falta dos pássaros. Mande para mim os sons da minha casa. Entre no jardim e faça soar os sinos. Primeiro grave esse repicar suave dos sininhos pequenos quando o vento bate neles, e depois puxe o cordão do sino maior cinco, seis vezes. Sinos, meus sinos! Não há nada que soe tão bem como a palavra sino se a pendurarem num campanário junto ao mar. E depois vá até as pedras e grave a arrebentação das ondas. E se ouvir o silêncio das estrelas siderais, grave (…)”

Eis uma obra que guarda curiosas singularidades em seu processo de concepção. Antonio Skármeta, chileno descendente de croatas, escreveu primeiramente “Ardiente paciencia” na Alemanha, para a difusão em uma rádio daquele país em 1985 e, apenas posteriormente, publicou a história no formato livresco, no mesmo ano.

Mario Jiménez, um pobre pescador que mora com seu pai, descobre desde bem cedo a sua completa inaptidão para os labores marítimos e, além disso, para o dissabor de seu genitor, mostra-se preguiçoso para certas tarefas e demonstra uma frágil saúde face às influências de um clima litorâneo. Por outro lado, é demasiado apaixonado por filmes e, às custas do pai, ocasionalmente satisfaz seu prazer no cinema da comuna de San Antonio. Todavia, a raridade de tal deleite faz com que um dia, ao se defrontar com um anúncio de vaga, o jovem Mario tome a iniciativa de entrar na agência de correios de sua localidade e prontamente se ofereça para o preenchimento de uma vaga de carteiro.

Seu chefe logo lhe adianta que, num local apinhado de pescadores e pessoas humildes, Mario apenas terá um destino, que é a casa do único homem de Ilha Negra que recebe correspondências, e as recebe em enorme quantidade: Pablo Neruda.

O que inicialmente era apenas uma admiração curiosa passa a ser uma forte amizade entre o poeta, Prêmio Nobel de Literatura de 1971, e o carteiro. Mario anseia, com uma paciência quase indômita (daí o título original), que Neruda lhe dedique um livro, e que o faça com uma fartura de palavras. A peculiar afeição entre os dois se intensifica na medida em que Mario descobre em sua sensibilidade o dom poético e o deslumbre pelas metáforas, bem como, principalmente, quando descobre seu amor por uma jovem conterrânea.

“O carteiro e o poeta” é uma obra sobre poesias, tanto aquelas escritas quanto as vivenciadas, em uma descarada homenagem à poética por vezes escondida no cotidiano, que lateja apenas aos olhares mais sensíveis. A linguagem é bastante característica, no melhor estilo dos escritores latino-americanos e, neste livro, notadamente intensa, com um humor sutil, muita ironia, bem como um erotismo marcante e saboroso. As metáforas são muito mais que meros detalhes neste mundo que mescla ficção e realidade, criado por Skármeta, alcançando a posição de protagonistas, peças fundamentais neste enredo – quem lê “O carteiro e o poeta” dá um novo significado às metáforas.

O enredo é temperado por alguns fatos da política chilena, sem que isso signifique que tais detalhes sejam colocados no eixo principal da obra. Skármeta inicia o relato em 1969, passando pelo governo de Salvador Allende, deposto pelo sangrento golpe militar do paspalhão General Augusto Pinochet. É no fim de “O carteiro e o poeta”, um livro que, acima de tudo, fala sobre amizade e amor, que percebemos um leve protesto à fétida mancha histórica representada pelas arcaicas e ridículas ditaduras da América Latina.

A obra de Skármeta inspirou duas adaptações para o cinema, sendo que a última destas é bem mais conhecida. Trata-se de “Il postino”, de 1994, dirigido por Michael Radford, e que traz algumas adaptações: a história se passa na Itália pós- guerra (1945), Mario é bem mais velho e tem o sobrenome Ruoppolo, e Neruda encontra-se exilado naquele país, além de outras sutis alterações que em nada maculam a beleza do filme, que no Brasil recebeu o mesmo título do livro (inclusive, o sucesso estrondoso dos filmes fez com que Skármeta mudasse o título original para “El cartero de Neruda”).

Enfim, para terminar com uma recomendação, leia “O carteiro e poeta” e, se possível, assista “Il postino”, e, depois destas experimentações, aprenda a ver poesia, beleza e, acima de tudo metáforas, em todos os lugares, mesmo nos mais rotineiros detalhes da vida.

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“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:
– É hoje.”

Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, lançou esta curtíssima obra após longos anos sem publicar novidades. Em razão deste longo período de abstinência, muitos leitores não se satisfizeram ou acabaram menoscabando “Memória de minhas putas tristes”.

O certo é que não se trata de um romance propriamente dito, por ser um livro demasiado curto – mas não tão breve a ponto de ser considerado apenas um conto. O importante é ter em mente que este é um livro explicitamente despretensioso no qual, certamente, o autor não buscou criar um épico da literatura mundial, e sim expor algumas reflexões sobre vida, amor e a fusão indissociável destes dois fatores em todos nós. Em suma, pode-se apenas dizer que se trata de uma deliciosa e surpreendente leitura, rápida, porém marcante, que mostra quão irrelevantes são quaisquer discussões quanto ao seu número de páginas.

O enredo se desenvolve com as reflexões de um escritor já em avançada idade, que passou a vida toda desenvolvendo tarefas em uma redação de um certo jornal, as quais reputa desanimadoras, fúteis e inspiradoras de um fracasso, além de ter sido professor em escolas públicas, sem vocação e tato ou compreensão com os alunos.

Ao se tornar um nonagenário, o protagonista deseja presentear-se com uma noite de amor com uma virgem. A dona de um prostíbulo, conhecida de longas datas, em resposta à demanda que lhe fora apresentada, consegue uma menina de 14 anos. Ao ter seus encontros com o objeto de seu desejo, o velho senhor se apaixona pela figura adormecida da menina e passa a dedicar todo seu amor àquela nova criatura, surgida em sua vida apenas nestes momentos finais.

São inegáveis as influências oriundas de “A casa das belas adormecidas”, de Yasunari Kawabata, cuja história trata de um bordel onde os anciões pagam para vislumbrar mulheres sem poder tocá-las, enquanto estas permanecem dopadas e em sono profundo (um trecho desta obra do autor japonês prefacia o livro de García Márquez).

É impossível não notar no relato leves traços biográficos de Márquez e, exatamente por isto, percebe-se que o autor, em “Memória de minhas putas tristes”, utiliza-se do personagem para deixar transparecer muitas de suas reflexões.

Como não poderia deixar de ser, o livro é repleto de frases carregadas de filosofia e sentimentos, em uma notável linguagem flexível, contundente e arguta – digna de Márquez.

Em verdade, o grande trunfo de Márquez nesta obra é que, após a sua rápida leitura, o leitor é forçado a entrar em uma meditação profunda sobre amor, velhice, sexualidade e idealização, tudo embebido em uma atmosfera onírica e poética.

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O norte-americano Dan Brown ganhou vultosa notoriedade com o best-seller “O Código Da Vinci”, que conta a alucinante aventura vivida por um professor de Harvard especializado em simbologia, Robert Langdon, ao lado de Sophie Neveu, uma criptógrafa francesa. Os dois enfrentam insólitas perseguições, desvendam incontáveis segredos, decifram códigos e mais códigos, correm inúmeros perigos e se deparam com mistérios assombrosos. Infelizmente e felizmente, este é o tipo de livro que deve ter o máximo de detalhes resguardados e, exatamente por esse motivo, esta singela resenha não se delongará mais acerca do enredo, de modo a não estragar o prazer alheio.

Brown é autor de outras quatro obras, sendo que uma destas ainda será lançada e sofreu certos atrasos em razão de um processo de plágio no qual o autor conseguiu demonstrar sua inocência – trata-se do livro “The Solomon Key”, ainda sem título em português e que conta a terceira aventura vivida pelo intrépido professor Langdon. Diferentemente do que muitos pensam, “O Código da Vinci” é o segundo livro cujo protagonista é Robert Langdon, sendo que o primeiro é “Anjos e Demônios” (Angels & Demons), de 2000.

A exemplo dos outros livros de Dan Brown, os acontecimentos em “O Código Da Vinci” se passam em pouquíssimos dias e alguns dos principais fatos transcorrem em questões de minutos, o que acaba dando um autêntico ritmo frenético ao enredo.

Devem passar longe de “O Código Da Vinci” indivíduos pouco imaginativos e os católicos fervorosos (melhor dizendo, todo e qualquer religioso extremista). Além disso, certamente terão uma leitura mais deleitosa aqueles que, mesmo que minimamente, saibam apreciar as artes em geral e traços culturais da história da humanidade. É conveniente chamar atenção para a belíssima edição ilustrada do livro, lançada em 2005 pela Sextante e que, indubitavelmente, enriquece a experiência do leitor.

Indiscutivelmente, um livro empolgante e extremamente viciante, que vai muito além dos limitadíssimos rótulos de “romance policial” ou “romance mystery”, sendo tão raro e surpreendente quanto um bom filme nestes hodiernos e monótonos tempos.

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Dimitri Borja Korosec, nascido na Bósnia em 1897, é filho de um anarquista sérvio e uma contorcionista brasileira que fugiu de sua pátria para acompanhar uma trupe circense. A mãe de Dimitri guarda uma peculiaridade em suas espúrias origens, uma vez que é filha de uma escrava com o coronel Manoel Vargas, pai de Getúlio Vargas.

Por influência de seu pai, o jovem Dimitri ingressa na Skola Atentatora, uma instituição que forma assassinos profissionais, especializados em atentar contra ditadores e políticos “opressores”. Todavia, o já obstinado rapaz, além de uma anomalia que o faz ter um dedo indicador a mais em cada mão, é caracterizado por ser explícita e exageradamente desastrado.

Após concluir seus “estudos” na delicada arte de matar, o jovem anarquista parte em uma inflexível cruzada tendente a exterminar todos os ditares e opressores do mundo. Em sua insólita jornada, Dimitri presencia o estopim da Primeira Grande Guerra, participa diretamente deste conflito, conhece Marie Curie e Mata Hari, sendo que esta última no Orient Express, passa pelo fantástico mundo Hollywoodiano, conhece Al Capone e a nata da máfia de Chicago e, dentre inúmeros outros destinos, passa pelo Brasil, tão mencionado por sua mãe e que lhe inspira várias curiosidades. As destinações e personalidades mencionadas acima são apenas exemplos de um enredo feito no melhor estilo “Forrest Gump” (1985), um livro de Winston Groom que baseou o filme de Robert Zemeckis.

E são nestas curiosas bases que Jô Soares estrutura – com maestria – “O homem que matou Getúlio Vargas”, uma simples, acessível e deliciosa obra que mistura inteligentemente História e ficção, absurdo e realidade. E essa combinação é feita com tanta perícia (e, principalmente, tanto cinismo) que o leitor não interrompe a leitura para se questionar acerca da veracidade ou coerência dos fatos, limitand0-se a devorar as páginas, aceitando como a mais pura verdade todas as passagens e acontecimentos da vida de Dimitri Borja Korosec.

Muitos resistem à leitura das obras de Jô Soares, por vezes fundamentando sua resistência na presumida personalidade egocêntrica do autor. Todavia, convém ressaltar que, mesmo que tais oposições possam ser pertinentes, elas não significam de modo algum uma suposta diminuição de qualidade dos escritos. Vale a pena ler esta preciosa obra, que quando é terminada deixa uma suave sensação de “querer mais”.

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